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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Gestão inovadora – O efeito abelha rainha

Volta e meia nos deparamos com revistas especializadas em gestão e negócios falando do modo vanguardista e fora dos padrões conhecidos de administração de empresas. Google, Apple, Facebook e tantas outras empresas milionárias são exemplos de gestão horizontal, clean, criativa, inovadora, e com muito, mas muiiiito menos caciques do que índios; ao contrário da maioria das empresas brasileiras que mais parecem paquidermes vesgos. As estatais têm, na sua maioria, um modelo de gestão arcaico e amarrado como uma múmia. Reservas de mercado e monopólios mantêm a maioria desses paquidermes públicos ou privados no topo de seus segmentos. Aqui não vai nenhum juízo de valor político-ideológico, apenas exponho as entranhas do bicho.

Ricardo Semler, presidente da Semco, uma empresa brasileira do setor privado de bens e serviços, sediada em São Paulo, é um exemplo escasso brasileiro com reconhecimento no exterior que fugiu à regra desde muito antes de Mark Zuckerberg pensar na sua rede social Facebook. Semler diz que, evitando exercer um controle intenso, o gerente cria condições para que a mudança seja efetivada por ela própria. Ele acredita ser essa fórmula que ajudou sua empresa a eliminar os problemas infantis que consomem de 20% a 30% do tempo de um gerente e que fazem parte dos problemas que serão abordados por muitos programas formais de mudança.

Freqüentemente descrita como a empresa mais esquisita do mundo, a Semco é um epítome da abordagem à mudança de baixo para cima. São os funcionários que escolhem o que querem fazer, seus títulos, lugar e horário de trabalho e, até mesmo, o quanto devem ganhar. Todos na empresa passam por uma avaliação semestral de 360 graus. Essas avaliações formam o cerne de qualquer mudança que for necessária. Os líderes são escolhidos pelos seus próprios subordinados e, quase sempre, de dentro da empresa, de modo a evitar que mudanças radicais sejam impostas por novos líderes vindos de fora, na tentativa de causar boa impressão. A posição do CEO não é fixa, pois há um rodízio entre quatro pessoas, cada uma assumindo o cargo por um período de um ano. A empresa nem mesmo faz previsões orçamentárias anuais – a previsão máxima é de seis meses. Em resumo, a Semco redefine a mudança: em vez de ser encarada como um trabalho de líderes seniores, ela é responsabilidade do que Semler chama de átomos, grupos de 8 a 12 pessoas que supervisionam os processos básicos da empresa. Conseqüentemente, a mudança ocorre de forma contínua, gradual e equilibrada – quase que de forma imperceptível.

A aplicabilidade do modelo da Semco a grandes corporações é motivo de debate. No entanto, Henry Mintzberg, professor de estudos gerenciais da McGill University, na cidade de Montreal, afirma que vale a pena aplicar os conceitos de Semler, os quais, segundo ele, são muito reanimadores, uma vez que contrariam a tendência da maior parte das empresas que utilizam um modelo de gerência em excesso.

Para Mintzberg, os conceitos de Semler manifestam a sabedoria de saber quando reduzir as camadas hierárquicas. A noção de que a mudança ocorre de cima para baixo é uma falácia induzida pelo ego, pelo culto da gerência heróica e pela peculiaridade americana de superenfatizar a iniciativa de assumir o controle. Se as empresas de fato dependessem de mudanças dramáticas vindas de cima para baixo, poucas sobreviveriam. Na verdade, a maioria das organizações obtém sucesso por causa do pequeno esforço de mudanças que começam no meio e na base da organização e só mais tarde são reconhecidas como mudanças de sucesso pela alta administração.

Mintzberg argumenta que um líder exemplar não tenta efetivar muitas mudanças. Ao contrário, ele age como uma abelha rainha, que não faz coisa alguma, a não ser procriar e exalar uma substância química que mantém todos unidos. Cabe às abelhas operárias se ocuparem em sair para sondar o ambiente, descobrir novas fontes de sustentação do enxame e, ao se confrontarem com um ambiente em desenvolvimento, fazer as mudanças necessárias para a preservação do enxame.

Semler é autor do famoso "Virando a própria mesa".

É isso. Menos caciques e mais empowerment.

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